Out of Babel I

Out of Babel I

Prólogo - πρόλογος – (prólogos), prólogos ou Making of

Quando me pediram para escrever este artigo, imediatamente algumas coisas popped out (ainda bem que sei um pouco de Inglês porque não haveria melhor expressão do que esta: pop out, para descrever o que me aconteceu), out do meu brain: FERNANDO PESSOA e GLOBALIZAÇÃO (PAGE, Martin; A primeira aldeia global, Como Portugal mudou o mundo). Depois, menos impetuosamente, o Mito da Torre de Babel também popped out. Depois ainda, tímida, mas confiante, espreitou a teoria dos benefícios cognitivos de aprender/falar mais do que uma língua. E depois o que era o futuro… e que já é o presente: apps, plataformas, vídeo conferências, vídeo reuniões, onlines, e-learnings; b-learnings, e outros que tais! FERRAMENTAS DIGITAISEt voilá, saiu isto: (em duas partes)

Falar línguas estrangeiras é, indubitavelmente, uma competência catalisadora de muitos êxitos dos seres humanos - poderá ser mesmo determinante na evolução da espécie, sê-lo-á na medida em que aprender uma língua nunca será apenas aprender palavras, estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas e pronúncia. Desconsiderar o papel das línguas é não perceber a nossa espécie e a sua evolução, a complexidade do nosso cérebro, o quanto isso está ligado à linguagem. Afinal cada vez que produzimos uma frase estamos, ao mesmo tempo, a usar os seguintes conjuntos que compõe uma língua; léxico, semântica, discurso e gramática, o que prefigura uma função altamente complexa e reveladora das especificidades da espécie humana, de cada país/povo, região, pessoa e, naturalmente da nossa evolução. Mas… de onde vem esta nossa característica?

Recuemos. Relembro o mito da Torre de Babel que tant bien que mal, enquadra o fenómeno das línguas. A história é mais ou menos esta, permitam-me a liberdade narrativa: o Homem sempre sonhou, sempre ambicionou, sempre desafiou… Há muito tempo, os homens uniram-se todos na construção de uma torre, uma torre que chegaria aos céus, uma escada para o mundo dos Deuses! ὕϐρις Hybris (desafio)! Os deuses, muito donos da sua divindade, não podia admitir tal ousadia, tal afronta, tal desafio! O castigo depressa se abateu sobre os impertinentes mortais – a torre foi destruída, os seus construtores espalhados pelo mundo e, o pior dos castigos, condenados a falar diferentes línguas para que não se pudessem entender, para que nunca mais se pudessem entender e unir num desafio aos deuses. Entendamos a ironia desta «tragédia grega» - fomos castigados por trabalhar em equipa, por cooperarmos, a, para todo sempre, não nos compreendemos! E, reza a história, assim nasceram as línguas - de um castigo pela nossa humanidade. Aprendemos alguma humildade, porque agora, se nos quisermos entender, temos que aprender a língua dos outros. E a Torre de Babel? Nunca mais nos conseguimos entender para a reerguer… Fora de Babel… Out of Babel… condenados a não perceber outras línguas, outros povos.

Saltemos das ruínas de Babel para a Globalização… O castigo de Babel dividiu-nos, mas nós, mais divinos que os deuses, lá encontrámos o caminho para uma humanidade pré Babel – afinal somos seres gregários. Continuemos dentro do mito da Torre de Babel – o que nos aconteceu foi dramático, brutal, desumano. Os caminhos do retorno à humanidade, trôpegos, imperfeitos, lá os vamos trilhando. Espalhámo-nos pelo mundo, criámos pontes, fluxos, … levámos a nossa língua, recebemos outras… não há globalização sem se falar outras línguas… Nunca houve nenhum império que não se impusesse também pela língua: O mundo estava a mudar e Alexandria era o seu espelho. A língua grega estava a converter-se na nova língua franca. Não era, claro, a língua de Eurípedes e de Platão, mas sim uma versão acessível à qual chamavam koiné, algo parecido com esse inglês para desenrascar com o qual nos entendemos nos hotéis e aeroportos nas férias. Os reis macedónios tinham decidido impor o grego em todo o império, como símbolo de domínio político e supremacia cultural, deixando para o próximo o esforço de aprendê-lo se se quisesse fazer entender. (2021;VALLEJO, Irene; O Infinito num junco). Porquê? Porque precisamos de nos entender, de nos conhecer. Porque língua não é, nunca foi só língua. Língua é história, é cultura, é tradição é fisiologia, é mudança, é negócio, é comunicação, é pressão. É Poder.

(Continua - Out of Babel, Parte I)

Por Ana Barata Feio

Coordenadora de Formação  no Citeforma na área das Línguas

04 fevereiro 2022

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